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Visita ao Campo de Concentração de Dachau — Um encontro direto com a escuridão da história

  • Foto do escritor: Fernando Lino Junior
    Fernando Lino Junior
  • 7 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

Visitar o Campo de Concentração de Dachau é uma experiência que vai muito além de conhecer um ponto histórico. É entrar num território onde a humanidade foi quebrada e transformada em dor, sofrimento e silêncio. Caminhar por seus espaços é sentir, quase fisicamente, o peso de tudo o que aconteceu ali entre 1933 e 1945.


Dachau foi o primeiro campo de concentração oficial criado pelo regime nazista. Inaugurado em 1933, inicialmente serviu para aprisionar opositores políticos. Com o passar dos anos, tornou-se o modelo para todos os outros campos, recebendo judeus, ciganos, prisioneiros de guerra, homossexuais, religiosos, estrangeiros, testemunhas de Jeová e muitos outros grupos perseguidos. Estima-se que mais de 160 mil pessoas passaram por suas instalações, e milhares morreram ali.



A entrada — o choque do silêncio


Ao chegar ao portão, o clima muda completamente. A sensação é quase física: o ar parece mais frio, mais pesado, como se o ambiente carregasse uma energia silenciosa e densa. A primeira coisa que chama a atenção é a frase “Arbeit macht frei” – “O trabalho liberta” – ainda estampada no portão metálico. Ver essas palavras de perto, sabendo de todo o sofrimento e perversidade associados a elas, causa um impacto profundo. A frase, que deveria soar como promessa, ali se transforma em símbolo da ironia cruel do regime.


Quando finalmente atravesso o portão, a sensação de estranhamento aumenta. O silêncio que domina o lugar não parece natural; é um silêncio que pesa, que se impõe, como se o espaço inteiro deliberadamente guardasse as lembranças de tudo que aconteceu ali. Os sons do mundo exterior parecem ficar para trás, abafados por uma atmosfera quase ritualística. É como se cada passo ecoasse mais alto para nos lembrar onde estamos e o que este solo testemunhou.



O campo se revela amplo e desolado, estendendo-se em linhas geométricas marcadas pelo rigor militar. Cercas de arame farpado delimitam os limites da área, enquanto torres de guarda ainda se erguem, imóveis, como sentinelas de um passado que se recusa a ser esquecido. Algumas estruturas foram reconstruídas, outras preservadas como estavam no fim da guerra, compondo um cenário onde o passado e o presente coexistem de forma inquietante. Caminhar por entre esses espaços é sentir uma presença constante, um convite silencioso à reflexão e à memória.


Camp Prison — a parte mais sombria da visita

A área interna da prisão, conhecida como Camp Prison, foi para mim o ponto mais perturbador de toda a visita. Entrar ali é como atravessar um portal para um outro tipo de atmosfera — pesada, sufocante e quase sobrenatural.


Os corredores são estreitos, gelados. As celas são pequenas, com portas de metal e janelas mínimas. A sensação é de opressão imediata. Em cada sala, a imaginação corre solta: gritos abafados, torturas, isolamento absoluto. Ali, prisioneiros considerados "importantes" ou "perigosos" eram humilhados, espancados e deixados para definhar.



Foi também nessa área que ocorreram experimentos médicos — testes brutais que envolveram hipotermia, doenças, privação, infecções e outras técnicas cruéis que tratavam seres humanos como cobaias descartáveis. Estar naquele prédio e saber disso faz com que o ambiente pareça ainda mais pesado, quase irreal.


Os barracões — o cotidiano da desumanização

Seguindo a visita, cheguei à área onde ficavam os antigos barracões, uma das partes mais impactantes do campo. Hoje restam apenas duas estruturas reconstruídas, erguidas para mostrar como era o interior, mas o terreno ao redor deixa clara a dimensão do que existiu ali. Fileiras de bases de concreto se estendem em linha reta, marcando o lugar onde antes se alinhavam dezenas de alojamentos que abrigaram milhares de prisioneiros. Caminhar por esse espaço vazio já transmite a sensação de repetição, rotina e confinamento que dominava o cotidiano daqueles que foram obrigados a viver aqui.



Entrar nos barracões reconstruídos é vivenciar, mesmo que de forma distante, o que era sobreviver em um ambiente completamente degradante. Os beliches são apertados, empilhados uns sobre os outros, e os corredores são tão estreitos que mal permitem a passagem de duas pessoas lado a lado. A falta de ventilação teria transformado o ar em algo quase irrespirável. A sujeira, as doenças, os parasitas e a fome faziam parte da rotina diária. Prisioneiros amontoavam-se sem qualquer espaço pessoal, sem privacidade e sem o mínimo de dignidade humana. Ali, muitos enfrentaram noites intermináveis de frio, dias exaustivos de trabalho forçado e um desespero silencioso que consumia suas forças.


Mesmo restaurados, os barracões carregam uma atmosfera pesada, difícil de descrever. O silêncio no interior dessas estruturas parece quase deliberado, como se cada tábua de madeira e cada parede ecoasse histórias que nenhuma explicação histórica é capaz de reproduzir por completo. É um silêncio que fala mais alto do que palavras — um lembrete da brutalidade cotidiana e do sofrimento contínuo que marcaram a vida dos prisioneiros de Dachau.


A cozinha — O espaço do museu principal atualmente


O edifício que hoje abriga o museu principal de Dachau foi originalmente construído como parte essencial da infraestrutura do campo. Funcionava como o grande prédio de serviços: ali estavam a cozinha central, a lavanderia, oficinas, depósitos e áreas administrativas. Era também o local onde muitos prisioneiros passavam ao chegar, sendo registrados e introduzidos na rotina opressiva do campo. Essa estrutura foi ampliada pela SS entre 1937 e 1938 e operava de forma constante para sustentar o sistema de trabalho forçado, mesmo com racionamento extremo e condições desumanas impostas aos internos.



Atualmente, esse mesmo edifício transformou-se no centro de memória do memorial de Dachau. Desde a renovação do espaço em 2003, ele abriga a exposição permanente que narra, de maneira cronológica e profundamente documental, a trajetória dos prisioneiros dentro do campo: a chegada, o cotidiano, a disciplina brutal, o trabalho compulsório e, para muitos, a morte ou a libertação. São treze áreas expositivas que reúnem fotografias, documentos originais, objetos pessoais, relíquias resgatadas e depoimentos de sobreviventes. A proposta é reconstruir, passo a passo, a experiência vivida naquele ambiente, permitindo ao visitante compreender a dimensão do sofrimento que ali se desenrolou.


Há um simbolismo poderoso em transformar um prédio que sustentava a máquina de opressão em um espaço de memória e reflexão. O que antes servia para alimentar, registrar e controlar os prisioneiros, hoje guarda a história que denuncia as atrocidades e preserva a verdade sobre o sistema de campos de concentração. Caminhar por essas salas é sentir a presença do passado, perceber o significado moral de manter o lugar vivo e reconhecer a importância de que essa história seja contada — não apenas como registro, mas como alerta permanente para as gerações futuras.


Crematório e câmara de gás — o ponto mais difícil


O Barrack X, construído em 1942, foi projetado como um complexo de extermínio dentro do campo. Ele abrigava dois crematórios — um menor e outro maior, chamado de “Crematório II” — além de salas destinadas à desinfecção de roupas, depósitos, câmaras de espera e a câmara de gás. O prédio é simples por fora, mas sua função histórica dá a ele um peso imediato. Ao atravessar a porta, o visitante se depara com espaços frios, rígidos, feitos de concreto e estruturas metálicas, todos planejados para integrar o sistema de morte e processamento de corpos imposto pela SS.



A câmara de gás de Dachau, apesar de nunca ter sido usada para assassinatos em massa como as de Auschwitz ou Majdanek, foi construída com esse propósito e equipada com dutos falsos de gás e portas herméticas. Historiadores registram que ela pode ter sido utilizada experimentalmente ou de forma limitada, mas não como um centro de extermínio industrial. Ainda assim, entrar ali — um ambiente completamente vazio, silencioso e claustrofóbico — é enfrentar a realidade de um lugar projetado para matar. As paredes lisas, a ausência de janelas e a frieza do concreto criam um impacto psicológico profundo, impossível de ignorar.


Nos crematórios ao lado, essa sensação apenas se intensifica. Os fornos permanecem alinhados, com suas bocas abertas, preservados como testemunhas diretas da rotina de morte que fazia parte do cotidiano de Dachau. Ali, corpos de prisioneiros mortos por fome, doença, tortura ou execução eram incinerados todos os dias. Tubulações, trilhos, suportes e mesas ainda existentes ajudam a compreender como a SS transformou o processo de eliminação de corpos em uma engrenagem eficiente e desumana. É um dos pontos mais difíceis da visita, onde o passado se torna quase palpável — e onde a memória se impõe com mais força.


Reflexão final — um memorial que precisa existir

Sair de Dachau é sair diferente. O campo foi transformado em memorial na década de 1960, como uma forma de garantir que o mundo jamais esqueça o que aconteceu. Caminhar por ali não é turismo: é um ato de memória, de respeito e de responsabilidade.

Ver aquelas paredes, corredores, trilhos e estruturas sobreviventes nos lembra que a barbárie não aconteceu apenas nos livros — ela pisou nesse chão, respirou esse ar, e destruiu vidas reais, com nomes, histórias e sonhos.



Dachau é um alerta permanente.É um convite à reflexão.E é, acima de tudo, um pedido silencioso para que esse tipo de horror nunca se repita.


Como Chegar lá a partir do centro de Munique


Para chegar ao Memorial do Campo de Concentração de Dachau a partir do centro de Munique, o trajeto é simples e bem estruturado. Basta pegar a linha S2 do trem suburbano (S-Bahn), sentido Dachau/Petershausen, e descer na estação Dachau Bahnhof. A viagem leva cerca de 20 a 25 minutos. Da estação, é só embarcar no ônibus 726, que para exatamente na entrada do memorial em aproximadamente 7 a 10 minutos. Todo o percurso é bem sinalizado e pensado para visitantes do mundo inteiro, o que torna a experiência tranquila mesmo para quem não fala alemão.



O memorial é totalmente gratuito, tanto para entrar quanto para visitar as exposições permanentes. Não há bilheteria, apenas um centro de visitantes onde é possível pegar mapas, informações e orientações. Guias de áudio e visitas guiadas são pagos à parte, mas opcionais. O local funciona todos os dias, exceto 24 de dezembro, geralmente das 9h às 17h (podendo encerrar mais tarde no verão). O acesso às áreas externas e aos prédios históricos é livre, e fotografias são permitidas em quase todo o complexo, exceto em alguns pontos específicos indicados por placas. É recomendável dedicar pelo menos 3 horas para a visita completa, dado o tamanho e a densidade histórica do lugar.

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