Blindados soviéticos e russos no Museu de Saumur: uma travessia pela Guerra Fria sobre lagartas
- Fernando Lino Junior
- 14 de jan.
- 3 min de leitura
Ao entrar na seção dedicada aos blindados soviéticos e russos no Museu de Blindados de Saumur, a sensação é imediata: não se trata apenas de veículos, mas de um percurso físico e simbólico pela história da Guerra Fria. Logo na entrada, um trecho original do Muro de Berlim divide o espaço, acompanhado por um Trabant 601 Kübel, veículo que se tornou um ícone da Alemanha Oriental. A combinação não é casual: ela introduz o visitante ao contexto político e militar do bloco socialista, preparando o terreno para os blindados que moldaram décadas de confrontos indiretos entre Leste e Oeste.
A partir dali, a sequência de carros de combate médios evidencia a evolução da doutrina soviética. O T-54, marco fundamental do pós-guerra, aparece como o ponto de partida de uma linhagem que influenciou praticamente todos os MBTs do Pacto de Varsóvia. Ao seu lado, o Type 59 chinês deixa claro o alcance da engenharia soviética, sendo uma reprodução direta do T-54A, produzida sob licença e amplamente exportada. Em seguida, o T-62 demonstra a transição tecnológica, com o canhão de alma lisa de 115 mm e soluções voltadas para enfrentar os blindados da OTAN dos anos 1960. Mais adiante, o clássico T-34/85 surge quase como uma âncora histórica, lembrando que toda essa evolução nasceu das lições aprendidas na Segunda Guerra Mundial.
Os veículos de transporte e reconhecimento ocupam um espaço igualmente importante na exposição. O BMP-1 representa a consolidação do conceito de veículo de combate de infantaria, integrando mobilidade, proteção e poder de fogo em um único sistema. Próximo a ele, o BRDM-2 reflete a prioridade soviética em reconhecimento blindado rápido, enquanto o BTR-152V, ainda com rodas e concepção mais simples, mostra a transição entre os transportes improvisados do pós-guerra e os APCs mais modernos. Já o BTR-70 evidencia a maturidade dessa família, com melhor mobilidade e adaptação a ambientes NBC.
Entre os blindados menos conhecidos do grande público, mas extremamente interessantes do ponto de vista técnico, estão o GT-MU SPR-1 e o onipresente MT-LB, verdadeiro “canivete suíço” soviético, utilizado como transporte, plataforma de armas e veículo de apoio em inúmeras variantes. O BOV 3, embora de origem iugoslava, encaixa-se perfeitamente na lógica do bloco socialista, reforçando a diversidade de soluções adotadas pelos países alinhados a Moscou.
A artilharia autopropulsada e os sistemas antiaéreos fecham a experiência com peso. O BM-70, com seus tubos de foguetes, impõe respeito mesmo parado, enquanto o 2S1 Gvozdika mostra a preocupação soviética em manter a artilharia acompanhando unidades mecanizadas. O anfíbio PT-76 destaca-se pela leveza e capacidade de operar em terrenos alagadiços, algo essencial para a geografia do Leste Europeu. O antiaéreo ZSU-23-4 Shilka, com seus quatro canhões automáticos e radar integrado, sintetiza a resposta soviética à ameaça aérea em baixa altitude.
Por fim, o T-72, exposto parcialmente desmontado, é talvez um dos pontos mais didáticos de toda a seção. Ver seu interior revela de forma crua a filosofia soviética: perfil baixo, tripulação reduzida, carregador automático e uma clara priorização da produção em massa e da simplicidade operacional. Mais do que um tanque, ele encerra a visita como um resumo físico da doutrina blindada soviética, que influenciou conflitos do Oriente Médio à Europa Oriental.
Sair dessa seção do museu de Saumur é como atravessar décadas de tensão geopolítica condensadas em aço, motores e canhões. Cada blindado ali exposto não é apenas um veículo, mas um capítulo da história militar do século XX, apresentado de forma direta, técnica e extremamente impactante para qualquer entusiasta ou pesquisador da área.



























































































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